domingo, 21 de setembro de 2008

*SPEECH-Ficção

...Num prostíbulo local em Morro do Kalunga, uma mãe (que tentava complementar a renda familiar com geriátricos entretenimentos sexuais), é degolada friamente por um insatisfeito cliente idoso. Este fato é lembrado por Daví. Um dos filhos da puta, morta.

Nesta data triste, uma chuva fina insistia em perdurar por todo verão, e após quase uma década e meia do brutal crime, Daví se pôs em profunda sofreguidão...

...Anos se passaram, e ele se estabilizou em Katmandu no ano de 2037. Já com 44 anos, se relaciona casualmente com a famosa estudiosa e pesquisadora contemporânea, Betânia de Alcântara Avelar, de 47 anos.

Tal relação acontecera quando a bem sucedida, ilustre e magnífica ilusória Betânia Avelar, soube, através do fático diagnóstico do Dr. Euclides, que sofrera de uma rara enfermidade intestinal e que também lhe restara pouco tempo de vida. Este diagnóstico fez com quê, Betânia saísse de seu confinamento voluntário, para tentar resgatar seus anos de reclusão social com alguma aventura amorosa, e passageira. No caso, Daví, que além da perda da mãe-puta, não havia notícia alguma do paradeiro de seus três irmãos, desaparecidos desde 2020.

Na tarde de uma terça-feira feia, enquanto Daví finalizava a leitura do livro “O Mundo como Vaidade e Repetição” em homenagem póstuma à sua amada e saudosa Betânia, ouviu-se batidas na porta. Ao averiguar, constatou a presença do carteiro.

- Entrega especial para o Sr. Davi. Disse o carteiro.
- Sou eu. Obrigado.

Uma carta misteriosa. Não havia muitos dados e apenas uma assinatura simples no remetente: Elliot.

Na carta, datilografada por uma possível máquina de escrever, trazia uma única linha fria que noticiava a morte do estimado Senhor Enrico. Falecido aos 100 anos.

Daví ficou estupefato! Logo pensou: Como nossa vida é permeada por tamanha solidão? Olhou para a parede onde estava pendurado o retrato de A Canoa sobre o Epte** presenteada pelo sábio Senhor Enrico. Lembrou-se dos ensinamentos do velho, do “Manifesto Comunista”, de “Frankenstein” e de Mary Shelley. E refletiu em como nos transformamos em Monstros do Tempo, costurados pelas amarras do passado.

A partir daquele momento quis ser “O Falastrão de Contus Humanus”. Carregar uma Dor como a de Dostoievski e se deteriorar degustando “Licores Envenenados”.
...Isso sem a companhia de “pássaros Chuí”, mas ainda sim, dividindo a latrina com fétidas baratas de esgoto.

Em suas ébrias andanças, presenciou um recital da Maior Sonetista de todos os tempos e se sentiu como um poeta menor. O que o levou a se afundar mais e mais em frenesis alcoólatras.

Que Deus o livre deste pecado... E o livrou!

Após se endividar com seus vícios, percebeu que estava se afogando num lodo viscoso... Resolveu encarar a vida de frente e dar a famosa "volta por cima". Mudou-se de logradouro e nome. E como um operário padrão, acumulou suadas economias que lhe gerou a possibilidade de financiar e adquirir um imóvel, para poder sobreviver dos aluguéis dos quartos destinados a abrigar desolados assalariados.

Agora, com a alcunha de Senhor Rubens, para comemorar tais superações de sua imunda vidinha transitória, escreve num pedaço de papel de pão:

“De nada adiantou girar a roda gigante, pois continuo por baixo como um verme, esmagado”.

Veste-se com um belo terno preto e uma camisa de seda suíça. Pente-a os cabelos grisalhos, perfuma-se, mira-se no espelho e acende um charuto, saúda a si mesmo com uma taça de vinho barato, dando-se o luxo de adicionar barbitúricos e também uma dose de estriquinina.

*Baseado no livro "Contus Humanus" da filósofa Sylvia Mª Marteleto.

**A Canoa sobre o Epte, oléo sobre tela (Claude Monet, 1890).

Um comentário:

Jothaszys disse...

brigadão!A intenção é essa mesmo tentar melhorar cada dia mais..
tudo d bom p vc tchau!!