sexta-feira, 13 de junho de 2008

SPEECH in construction



Trecho de SPEECH – Parte 02

Anônimo

Estava em casa numa noite de sábado assistindo TV. Gosto da TV. Principalmente quando ela está desligada. Não gosto é da programação pública oferecida. Detesto programas televisivos. Sentado e sem muitas opções de canais alegres e sinceros, ali estava sendo sucumbido por notícias do país e de todo sistema solar. Resumos forjados, esportes de merda, matérias das mais variadas sobre militarismo; como o poder bélico que os paises “desenvolvidos” detêm e são usufruídos sob uma estética psicológica do medo encima dos países de 3º mundo; desfiles e mais desfiles de “autoridades” religiosas: babacas papais; autarquias governamentais falidas; miséria global, índices de desemprego que assolam e assombram nações; a falta de moradia, saúde e educação; fome e desnutrição... Etc. & etc. Depois de ter engolido todo o lixo-televisivo, precisava de algo concreto para sobreviver. No intervalo daqueles comerciais lisérgicos que ditam moda: “Compre isso para se tornar Aquilo” ou “Compre aquilo para se tornar Isso”, aproveitei e fui até a cozinha para forrar o estômago. Abri a geladeira, nada. Apenas uma pizza barata. Daquelas mais vagabundas. Peguei-a, olhei com um olhar clínico de gourmet. A data de validade estava borrada. Naquela altura, nada disso importava. Continuei com minha biopsia literária. Analisei cada linha contida nas instruções, para se obter um bom resultado daquela dádiva culinária. Após dissecar linha por linha, conclui que, era mais tranqüilo do quê ler bulas de remédios. Prontifiquei-me a assá-la, liguei o forno. Enquanto o forno aquecia, senti falta de uma companhia para o esplendoroso jantar. Uma bebidinha, não seria nada mau. Havia litros e mais litros... D’água, armazenados em garrafas pet e Todos aconchegados exatamente e maravilhosamente na parte inferior da porta da geladeira. Isso não cairia bem. Poderia causar-me inchaço na barriga. Além de outras atrocidades maléficas. Juntei alguns trocados que achei, não me lembro onde. Não eram suficientes para uma pequena e respeitosa embriagueis. Recorri até o santificado cofrinho. Contei todas as míseras moedas que estavam sendo economizadas com o único e exclusivo propósito insólito de comprar uma passagem, só de ida, para o Caribe ou outro lugar qualquer. Hoje, elas (as moedinhas), e a bebida me transportarão para onde eu quiser. Até mesmo para o Tibet. Somei as gloriosas moedas aos miúdos trocados. Sim! Um valor digno para acabar deitado, seminu, no sofá, até o dia raiar. A maldita pizza já estava exalando teus aromas afrodisíacos. Resolvi ir logo, até um comércio local, e mais próximo. A pizza estaria pronta em poucos minutos. Ao sair do estabelecimento, de posse de magníficas long-necks (as famosas ampolas), um peçonhento andarilho fitou-me nos olhos, mirou-me e disparou suas proféticas palavras:

“ME-CONDUZA-PARA-O-INFERNO!!!”

Antes que eu pudesse dialogar algo, para me defender ou até mesmo, consolá-lo, num piscar de olhos, aquela criatura se esvaiu sorrateiramente, blasfemando para os quatro mundos, sua dor. Estático, estupefato e perplexo com as lindas palavras recitadas pelo andante, pus-me a disposição do encantador destino que me aguardava: Drinks, pizza, e TV. A intrigante frase maravilhava-me, acompanhando-me até meu refúgio. Após todo esse estrondo, me dei conta de duas coisas: 1º não nasci para regras. Todo o esforço em seguir cada detalhe informativo sobre o preparo da guloseima, foi em vão, a pizza se transformou naqueles biscoitões duros e também queimou as beirolas. E segundo, de certa forma, Todos nós, animais, objetos (animados e inanimados) e pizzas, de um jeito ou de outro, somos Todos conduzidos para o inferno.

Belo Horizonte, sexta-feira, 13 de junho de 2008.

2 comentários:

Sylvia Maria Marteleto disse...

NOOOSSSAAA! QUE TEXTO MARAVILHOSO, PODRERA! PARABÉNS VÉI... SENSO DE HUMOR AFIADO: MISTURA CERTAS TIRADAS DE HUMOR ÁCIDO COM SENSO CRÍTICO, MELANCOLIA E DESGASTE SIMULTANEAMENTE.

E VC AINDA QUERIA MINHA OPINIÃO? UAU! HEHEHE

O SPEECH ESTÁ MAIS DO QUE IN CONSTRUCTION... A VEIA JÁ ESTÁ PRONTÍSSIMA!

Grande beijo da fã do Speech, Sylvia.

Sylvia Maria Marteleto disse...

Aguardando ansiosamente pelas próximas partes do Speech... até agora, SEM DÚVIDA, a tonalidade de toda a sua produção que mais me tocou.

Bjs!